Edir Macedo, que frauda o sentido da Bíblia ela-mesma, não será o autor de uma bíblia do jornalismo ético
Reinaldo Azevedo (http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/), 07/05/2012
Vamos
lá. Não deixo de achar certa graça, embora haja no mundo milhares de
coisas mais interessantes e engraçadas, do que a tentativa de invasão do
blog pela súcia organizada para defender mensaleiros e atacar a VEJA.
Não! Aqui a canalha não vai botar as suas patas sujas. Já faço blog há
algum tempo. Sei como manter o espaço higienizado. O “instrumento de
luta” da hora é uma peça de ficção levada ao ar pela TV Record, aquela
do autointitulado “bispo Macedo”, com base em outra peça de ficção da
Carta Capital, a revista que oferecia, até outro dia, assinatura com
desconto para pessoas filiadas ao PT. Isso é que é prova de
independência! Faz sentido? No universo moral deles, todo sentido! Se a
publicação só existe porque conta com a generosidade dos anúncios
públicos e de estatais, é preciso oferecer a contrapartida. É dando que
se recebe. A profissão é antiga, vem dos tempos bíblicos.
“Ah, tá
falando isso porque seu blog está hospedado na VEJA”. Pois é… Não
haveria nada de errado se assim fosse, mas não é. Muito antes de meu
blog estar aqui, estive em outros lugares e fiz outras revistas. Todos
sabem o que penso dessa gente há muito tempo. Antes de Mino Carta servir
ao petismo, serviu a Orestes Quércia, por exemplo. Quando este começou a
viver o seu ocaso, decidiu se virar nos 30… Nos primórdios de 2002,
namorou com Ciro Gomes. Mas pertence à espécie dos que têm bom faro.
Percebeu que o petismo lhe oferecia melhores condições de trabalho e se
tornou um entusiasta da causa, sempre com aquele arzinho de desdém que
devota aos brasileiros, por ele tratados como “os nativos”. Mino se
considera membro de uma certa aristocracia do espírito, que,
eventualmente, precisa do aporte de gente menos espiritualizada para se
manter. O ódio que tem da VEJA é proverbial e conhecido.
A
“reportagem” da Carta Capital que serve de base para a “reportagem” da
Record não passa de um apanhado de ilações ridículos e sem amparo nos
fatos. As gravações exibidas como “provas” provam apenas que um
jornalista da VEJA tinha, entre suas fontes, Cachoeira e seus serviçais.
E daí? Tentar transformar isso em crime é uma tentativa de criminalizar
o próprio jornalismo investigativo. Pergunto: o jornalista da revista
usou aquelas informações para ganhar dinheiro? Usou aquelas informações
para fazer negócios em seu nome ou da revista? Usou aquelas informações
para obter algum benefício? Não! Com elas — e recorrendo sempre a outras
fontes que ajudaram a desvendar a infiltração de criminosos no governo
—, colaborou para desbaratar quadrilhas que estavam infiltradas no
Estado. Dilma não se livrou de seis ministros-problema para ficar de bem
com a VEJA. Ela se livrou de seis ministros-problema — e mais a
camarilha que estava no Dnit — porque constatou, quando menos,
evidências de lambança.
Na
reportagem da Carta Capital e da Record, não por acaso, ignoram-se os
dados levantados pela Corregedoria Geral da União. Eles demonstravam a
lisura de procedimentos? Não! Eles demonstravam a roubalheira.
Aquilo que a
“reportagem” da Record apresenta como evidências contra a VEJA é uma
fraude montada a partir de fragmentos de conversas que mal esconde o
intento — é uma exigência! — de transformar, sempre ele, José Dirceu, o
“chefe de quadrilha” (segundo a Procuradoria Geral da República), em uma
pobre vítima das armações de Cachoeira. Vítima? Dirceu organizava um
governo paralelo num quarto de hotel, no momento em que o chefe da Casa
Civil era defenestrado, o que foi denunciado por VEJA, e essa gente fala
em investigar a revista? Ora…
Quem frauda a Bíblia frauda os fatos
O papel da Carta Capital e assemelhados e da Rede Record nesse
imbróglio não é novo. Edir Macedo é dono de uma igreja — e deixo claro
que os fiéis não têm nada a ver com suas lambanças; estão lá de boa-fé —
e de um partido político, o PRB, que ganhou há dias o Ministério da
Pesca. Seu titular, Marcelo Crivella, é sobrinho do chefão da
organização. Sua primeira declaração ao ser nomeado exibia a sua
intimidade com a pasta: “Vou aprender a pôr minhoca no anzol”.
Caso se
reconstitua a trajetória de Macedo e se tente entender como amealhou
recursos para se tornar empresário de comunicação, vai-se concluir o
óbvio: o dinheiro, originalmente, saiu da igreja, da doção feita pelos
fiéis. Problema: trata-se de uma atividade não-tributada constituindo
fundos para organizar uma empresa privada. Ainda hoje, boa parte da
receita da emissora sai dos cofres da Universal. Como a simples
transferência de recursos é proibida, usa-se um artifício: a Igreja
“compra” tempo na Record e paga por ele um preço que ninguém mais
pagaria.
Macedo impõe
ao jornalismo o mesmo padrão e rigor teórico com que leva adiante em
sua teologia. Este é aquele senhor que recorre a uma passagem do
Eclesiastes para justificar o aborto, por exemplo. Também é aquele líder
religioso que aparece num vídeo, com um chicote na mão, para expulsar o
demônio do corpo de um homossexual. Se faz isso com a religião, por que
faria diferente no jornalismo? “Ah, o Reinaldo está recorrendo a coisas
que não têm nada a ver com o caso…” Ah, tem, sim! Quando se evoca o
Eclesiastes para justificar o aborto, estamos diante de uma fraude
teológica! Quando se recorre ao chicote contra um homossexual para que
ele mude sua orientação, estamos diante de uma fraude em qualquer
sentido que se queira: psicológica, religiosa, ética. Quando se leva ao
ar aquela montagem asquerosa tentando incriminar o jornalista da VEJA —
que só fazia o seu trabalho —, estamos diante de uma fraude
jornalística. Porque a tudo isso preside o mesmo padrão moral.
Nada de errado
Qualquer jornalista responsável, de posse das mesmas
informações que tinha o jornalista da VEJA, faria o que ele fez:
reportagens! Se Cachoeira e outros tantos gostavam ou não dela, isso é
irrelevante. ESSA PATACOADA SÓ ESTÁ NO AR AGORA PORQUE ALGUMAS DAS REPORTAGENS QUE TENTAM DEMONIZAR CONTRARIARAM O INTERESSE DE QUADRILHAS INFLUENTES.
Alguém se
interessou em saber a origem das fitas que resultaram no “escândalo das
privatizações” — “escândalo” que, sabe-se agora, depois de muitas
investigações, nunca existiu? Alguma vez os petistas se lembraram de pôr
a bola no chão para ponderar: “Pô, gente, vamos com calma! Esses que
querem derrubar a cúpula do BNDES e do Ministério das Comunicações são
todos bandidos…” Não! Não se disse uma vírgula a respeito. Ao contrário:
defendia-se o uso aberto de fitas gravadas sem qualquer autorização
judicial porque se sustentava: “O que importa é o crime que está sendo
denunciado”. Crime que, reitero, nunca existiu. Mas, vocês sabem, como
era coisa contra tucanos, tudo bem! Caso semelhante a este de que trato?
Não! As reportagens da VEJA trouxeram à luz corrupção comprovada,
escancarada. A “privataria” era uma farsa.
Alguém se
interessou — antes que a própria polícia o fizesse — em saber qual era a
fonte que alimentava a imprensa com o tal Dossiê Cayman? Por mais que
os tucanos negassem qualquer envolvimento com o caso e afirmasseM que
tudo não passava de loucura e de armação, jamais se levantou a questão
das “fontes”. Os jornalistas que deram curso àquela mentirada desfilam
por aí, lépidos, como se nada tivesse acontecido. Caso semelhante a este
de que trato? Não! As reportagens da VEJA trouxeram à luz corrupção
comprovada, escancarada. O Dossiê Cayman era uma farsa.
No caso da
suposta compra de votos da reeleição — em que se armou uma escuta —,
alguém se preocupou em saber qual era a fonte e quem estava por trás da
tramoia? Também nesse caso, os alvos eram tucanos — e, se é assim, então
nada se pergunta. Por que essa gritaria agora?
A resposta é simples
Porque uma das especialidades de uma banda do PT e outros a ela
associados é inverter a lógica dos fatos e o sentido moral dos eventos
históricos. Tentam transformar a ação virtuosa da reportagem de VEJA,
QUE DENUNCIOU A AÇÃO DE LARÁPIOS NO GOVERNO — E FOI DILMA QUEM OS BOTOU
PRA FORA, NÃO A REVISTA — em crime. E, POR ÓBVIO, TENTAM TRANSFORMAR
CRIMINOSOS EM VÍTIMAS. Na peça de ficção da Record, fica parecendo que
José Dirceu brincava de amarelinha em reunião clandestina com o
presidente da Petrobras, o ministro do Desenvolvimento Industrial, o
líder do governo na Câmara, entre outros.
Os
repórteres investigativos — e existe até uma associação no Brasil que os
junta — devem se reunir, a partir de agora, e estabelecer um código de
ética próprio: “Só falaremos, daqui para a frente, com pessoas de
reputação ilibada. Descobriremos as safadezas da República conversando
com acadêmicos, teólogos, filósofos etc. Antes de saber se alguém pode
ser uma fonte, vamos pedir atestado de bons antecedentes…”
Imaginem se a
Polícia Federal vazar todas as conversas que certamente tem lá
guardadas de repórteres com suas fontes — claro,claro, os grampeados não
eram os jornalistas, mas as fontes… A propósito: quem organiza os
vazamentos das gravações? Notaram que todos os que as tornam públicas
fazem questão de frisar: “Conversas gravadas com autorização judicial..”
Verdade! E o vazamento? Também tem autorização judicial ou, na origem, é
um crime? Respondo: na origem, é um crime. Repórteres estão ou não
utilizando um material decorrente de um crime, já que ele estaria
resguardado por sigilo de Justiça? Estão! Mas não estou aqui a defender
restrições para o jornalismo, não! Se vazou, vazou! Papel de jornalista
não é assegurar sigilo de coisa nenhuma. Mas não vale fazer de conta que
foi um grande professor de ética que passou o troço adiante.
Concluindo
E que fique claro a essa gente que atua como ordem unida, que
obedece a um comando, que escreve o que interessa a seus financiadores.
Este texto é meu, publicado no meu blog, que está hospedado na VEJA
Online. Não é um texto “da VEJA”. Os princípios que norteiam a revista
já foram tornados públicos por Eurípedes Alcântara, diretor de Redação
da revista. Não falo pela publicação. Falo o que penso.
Sei que
alguns chegam a ficar constrangidos que assim seja, porque contrastam a
minha independência com a sua sujeição, mas o fato é que escrevo o que
quero, com a opinião que tenho — e nem sempre coincidente com escolhas
editoriais da VEJA. Pluralidade não é alegoria de mão de desfile
carnavalesco. É um fundamento da democracia.
No próximo
post, apresento três evidências do rigor teológico de Edir Macedo. O
mesmo rigor que ele levou para o jornalismo. O PT começou citando Karl
Marx e terminou no colo do “bispo”. E, no entanto, asseguro: o
jornalismo independente vai sobreviver ao ódio de uns e à vigarice de
outros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário