Nelson Motta - O Estado de S.Paulo
11 de maio de 2012 | 3h 01
Quando um pagodeiro, um jogador de futebol e um
funkeiro, fantasiados de gorilas e cercados por popozudas de biquíni à
beira de uma piscina, se divertem em um clipe do pagode Kong, e são
acusados de racismo e sexismo pelo Ministério Público Federal em
Uberlândia por "unir artistas e atletas em um conjunto de estereótipos
contra a sociedade, comprometendo o trabalho contra o preconceito", a
coisa tá preta.
Alexandre Pires não é só um pagodeiro, é cantor romântico milionário,
com carreira internacional, queridíssimo do público. Funkeiro é só um
pouco de Mr. Catra, figuraça da cena musical carioca, rapper famoso
nacionalmente por suas letras contundentes e suas paródias. E não é só
um jogador de futebol: é Neymar. Não por acaso, uns mais e outros menos,
são todos negros, ricos e famosos por seu talento, ídolos das novas
gerações do Brasil mestiço. Já o procurador é branco, preocupado em
proteger os negros para que não façam mal a eles mesmos.
Assim como a beleza, o preconceito também está nos olhos de quem vê.
Quem ousaria associar o genial Neymar, o galã Alexandre e o
marrentíssimo Mr. Catra a macacos? Só um racista invejoso. Quem se
incomoda com piadas e brincadeiras com jogadores de futebol, pagodeiros,
funkeiros e marias-chuteira? Logo vão proibir o Criolo de usar o seu
nome artístico.
O procurador ficou especialmente incomodado quando Mr. Catra, vestido
de gorila, cercado por gostosonas louras, ruivas e morenas e feliz como
pinto no lixo, diz ter "instinto de leão com pegada de gorila". Seria
uma sugestão preconceituosa da potência sexual afrodescendente. Êpa!
Elogio não é crime.
O clipe já teve mais de 3 milhões de acessos no YouTube, é muito
engraçado e bagaceiro, com produção e fantasias bem vagabundas, trash
brasileiro. Dá até para sentir o cheiro de churrasco. As mulheres, com
seus peitões e bundões, são o sonho de consumo sexual de milhões de
brasileiros e, sem preconceito, de brasileiras.
Freud explica: quando João fala de Pedro, está falando mais de João
do que de Pedro. Nas falhas, defeitos e intenções que um atribui ao
outro, revela-se mais de si do que do outro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário