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quarta-feira, 20 de junho de 2012

Intelectuais ligados a PT se calam sobre aliança


Acadêmicos não fazem comentários sobre acordo entre Maluf e Fernando Haddad

FOLHA DE SÃO PAULO, 20/06/2012


Intelectuais ligados ao PT silenciaram ontem sobre a aliança com o deputado Paulo Maluf (PP-SP) na eleição paulistana e as críticas que culminaram com a saída de Luiza Erundina da vice na chapa de Fernando Haddad.
Secretária da gestão Erundina na prefeitura (1989-1992), a filósofa Marilena Chauí se negou a falar: "Não vou dar entrevista, meu bem. Não acho nada [da aliança]. Nadinha. Até logo".
Também egresso da equipe de Erundina e hoje no governo federal, o economista Paul Singer defendeu a candidatura de Haddad, mas disse que não se manifestaria sobre o apoio de Maluf.
"Não tenho interesse em tornar pública qualquer opinião. Vai ficar entre mim e mim mesmo", afirmou.
Também não quiseram fazer comentários os intelectuais Antonio Cândido, Gabriel Cohn e Eugênio Bucci.
Já o sociólogo Emir Sader, da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), disse não ver novidade no apoio, uma vez que o PP é da base aliada federal.
"O fundamental é derrotar a 'tucanalha' em São Paulo. Eu posso gostar ou não do Maluf, mas vou fazer campanha para o Haddad do mesmo jeito", disse.
No Twitter, ele criticou a saída da deputada do PSB da chapa: "A Erundina sabia do apoio do Maluf quando aceitou ser candidata a vice. Então, por que aceitou?"
TEMPO DE TV
O professor de sociologia da USP Ricardo Musse, que participa da elaboração do programa de governo de Haddad, disse que o tempo de TV do PP é relevante e que não tem importância a foto com o aperto de mão entre Maluf e o ex-presidente Lula, ao lado do pré-candidato do PT.
"É um espetáculo midiático que dura 24 horas", disse.
Musse argumentou que pelo menos desde 2002 o PT abriu o arco de alianças. "Maluf e [Fernando] Collor apoiaram Lula e apoiam Dilma. Não vi nada de inusitado."
Fundador do PT e fora do partido desde o mensalão, o advogado Hélio Bicudo disse que o partido "se deteriorou".
"Vejo com naturalidade [a aliança]. Aqueles que são iguais, que têm o mesmo estofo, se cumprimentam", afirmou Bicudo, que foi vice-prefeito na gestão de Marta Suplicy (2001-2004) e apoiou o tucano José Serra para presidente em 2010.
(RODRIGO VIZEU E BERNARDO MELLO FRANCO)

terça-feira, 19 de junho de 2012

Sakamoto luta pela legalização do assalto


em Implicante, 19/06/2012
Estava eu na moral e na humildade fugindo do vazio da existência no vácuo abissal do Twitter – aquele buraco negro onde todos lutam contra a força centrípeta tentando fugir do vórtice central que nos arrasta para a piada do pavê. Estava tudo bem, até que alguém soltou um Sakamoto na timeline.
Entre as extensas listas de leitura que sou instado por meus leitores a sugerir, devo admitir o que nunca ainda afirmei: depois do Implicante™, a primeira coisa que vocês devem se preocupar em ler na internet é o Sakamoto.
A explicação é óbvia. De toda a blogosfera progressista, Sakamoto é autor ipse dixitLola Aronovich (ladies first) é a feminista que defende estuprador e espancador de mulheres, mas, vá lá, até que consegue falar alguma coisa interessante sobre algum filme inócuo uma vez a cada equinócio. Túlio Vianna é o cara que acha que uma mulher exibir lingerie no Twiter é “machismo”, ao mesmo tempo em que apóia a Marcha das Vadias e também quem estupra, seqüestra e mata a facadas uma adolescente – mas, ora, até pode dar umas dicas curiosas de carreira para seus alunos. Tem o Nassif, também. Ele escreve muito mal, mas vai que você gosta de MPB – pode até usar o blog dele pra alguma coisa. E, claro, você pode ler o Emir Sader, o Brizola Neto e o Paulo Henrique Amorim pra… ahn… bom, deixa esses exemplos pra lá.
Em suma, esses caras até têm trigo no meio do joio. Com Sakamoto a coisa é mais fácil: estourou um tema e você não sabe o que pensar a respeito? Corra para o blog dele e pense o contrário. É um manual perfeito de como não pensar. E isso abusando da amabilidade com os atos alheios.
Sakamoto escreveu agora que Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal. Para ele, a onda de arrastões que anda acontecendo em restaurantes de São Paulo (restaurante “chique” só por ter receitas que não envolvam calango) mostra como nossa “elite” é ruim, má, abjeta, nojentinha. Afinal, os juízes que estão reformando o Código Penal “não estão propondo que bulling seja crime? Ostentação é mais do que um bulling entre classes sociais. É agressão, um tapa na cara.” Na verdade, quando um assaltante enfia uma metralhadora na cara de alguns velhinhos jantando nos Jardins, a vítima é o assaltante, e os velhinhos é que são vermes que deveriam ir pra cadeia. E claro que só os mongolóides é que não entendem isso, pois, como ele afirma,
“Se o planeta não for gratinado por nossa ignorância no meio do caminho, tenho certeza que uma sociedade mais avançada vai utilizar esse texto para entender o que deu errado em uma cidade como São Paulo.”
Infelizmente para Sakamoto, ainda não vivemos na sociedade mais avançada da metralhadora social. E a despeito da logorréia fedendo a naftalina sobre “classes sociais” (classe é uma categoria mais abrangente do que espécie, gênero ou mesmo a família, o que não é cabível como explicação para uma sociedade com algumaliberdade de mercado que permita que se enriqueça ou se perca dinheiro em menos de uma década), tal arrazoado tem a profundidade de uma carcaça de planária. Deve convencer muito bem seus leitores e alguns intelectuais do complexo PUCUSP, mas não as duas categorias que sabem da vida: quem lê livros de verdade e quem mora lá na periferia, trabalha, estuda de noite e, como disse o Guy Franco, se assusta quando descobre que gente que nem o conhece sabe o que é melhor para ele sem o consultar.

Segundo Sakamoto, criminosos, mais do que escolherem o crime, fazem “uma escolha pelo reconhecimento social”. É a manjada filosofia de gabinete de professor pregando igualdade econômica na PUC. Para o professor, é “um trabalho ilegal e de extremo risco, mas em que o dinheiro entra de forma rápida”. Sakamoto deve ser um malufista convicto. Um árduo defensor da corrupção generalizada. Ou quando não tem sangue, não tem emoção? No pain, no gain?
Se soubesse como é a realidade da criminalidade (embora a palavra “realidade” talvez lhe dê um choque anafilático), poderia imaginar quão empreendedor alguém precisa ser para assaltar um restaurante. Não é pular na frente de alguém de noite com uma faca de cozinha e pegar o celular. É ter equipe, equipamento (aquele tipo de equipamento que explode miolos), planejar com dias de antecedência, ter rota de fuga e – prestem atenção na genialidade – fugir de carro depois de assaltar um restaurante nos Jardins! Ou um assaltante “afirma sua classe” nessas horas esperando num ponto de ônibus na Av. Faria Lima?
Na favela São Remo, do lado da USP, a polícia encontrou metralhadoras, granadas, armamento russo pesado traficado geralmente via Síria/Irã, que as FARC importam e depois passam por Bolívia e Paraguai até chegar ao Brasil. Quanto custa um revólver mequetrefe produzido pela Taurus? Já tentou imaginar o preço de uma metralhadora que rodou 3 continentes para tal? Será que a favela tem metralhadoras porque favelado “afirma sua classe” se preocupando em comprar Uzis (decorrêncianecessária do Sakamotismo, pobre é tudo assassino), ou por que alguns seres sem apreço pela vida alheia enriquecem absurdamente vendendo drogas para aluno vagabundo ali do lado?
Claro, a culpa não é do assaltante, do traficante, do aluno vagabundo. A culpa é sua, que “ostenta”. Afinal, se você é pobre, não tem – e, portanto, é obrigação de quem tem dar a quem não tem. Se um assaltante te mata, a culpa é sua, pela ostentação, que deveria estar arrolada no Código Penal. Uma pessoa não tem direito a dar a outra pessoa um direito que ela própria não tenha: para Sakamoto, portanto, se o Estado pode te mandar para a cadeia por ter algo, o assaltante pode te mandar pro IML.

Tudo decorre (prendam a respiração pois vai ser original) do consumismo, “pois não são apenas os jovens de classe média alta que são influenciados pelo comercial de TV que diz que quem não tem aquele tênis novo é um zero à esquerda”. Ora, existem milionários e miseráveis. Classe média não (isso só existe quando se trata de elogiar o Lula). E claro que um comercial te obriga a ter algo – como um comercial de absorvente me mostra que, sem Intimus gel, estarei lascado uns 4 dias por mês.
Para o professor Sakamoto, “as hordas bárbaras vão engolir a ‘civilização’”, o que deve ser comemorado (alguém aí tem um livro do civilizado Kaváfis para dar ao Saka?). E só “os mais ricos” reclamam. Como disse o Alexandre Soares Silva na Alfa desse mês, quando vou parar de ver críticas ao consumismo de quem consome bem mais do que eu?
Dear Sakamoto, deixa eu te explicar uma coisa: sou um falido, moro na periferia, nunca tive carro (nem minha família), não tenho nem CNH, estudo na PQP e volto de noite pra casa na frente de um matagal. É você, que dá aula na PUC, ou sou eu que tem medo da criminalidade? Entendeu a parada agora, longe do discursinho de “classes sociais”? Quem é mais assaltado e preocupado com segurança: quem mora no Capão Redondo ou no Morumbi? I rest my case.
Saka também bate no peito pra falar que cresceu no Campo Limpo. Ora, isso éostentação das bravas pra quem cresceu em Diadema, em Osasco, em Parelheiros, no Jardim Danfer, em Calmon Viana, no Capão Redondo. Temos algum critério de definição do que pode e do que não pode, do que é verdade e do que é mentira, que não dependa do quanto cada um ganha, no mais descarado polilogismo, como o demonstrou o maior economista desde o Big Bang, Ludwig von Mises? Por acaso aoganhar uns trocados vendendo pizza em Pirituba passamos a ser exploradores que devem ir pra cadeia, e não mais “vítimas do sistema”?
Mas falar de Sakamoto e contradição é uma coisa meio pleonásmica. Não precisamos cotejá-lo à realidade lá fora de sua vidinha de professor de PUC. Podemos nos ater a um único parágrafo de seu pastiche:
Qual a causa da violência? A resposta não é tão simples para ser dada em um post de blog, mas com certeza a desigualdade social e a sensação de desigualdade social está entre elas.
Não é tão simples, mas é com certeza desigualdade e sensação de desigualdade. E vocês aí, moscando e não instaurarando o comunismo (por que reclamar tanto de “desigualdade entre classes sociais” e ter tanto medo da palavra comunista?!). O problema é “falta de diálogo” (por isso precisamos de metralhadoras! para dialogar melhor!!), e não ver no outro um “semelhante” com “necessidades” (por exemplo, a necessidade de alguém de continuar respirando, e não tomar um tiro enquanto almoça). Mas quando a necessidade se torna valor de troca, quem é que vai dizer que necessita menos? Não é preferível ter o trabalho como moeda? (quem já leu 3 páginas de Ayn Rand pode gelar a espinha ouvindo alguém cuja Natureza lhe cobra as necessidades em formato de texto).
Claro, no parágrafo seguinte, Sakamoto já está berrando que devemos (como nos dá ordens o rapaz!) “combater a violência, garantir o direito de sair sem ser molestado”. Ainda não entendi se devo ser civilizado e convidar o Sakamoto para um restaurante ou lhe roubar seu ornitorrinco de pelúcia (afinal, ele tem, e eu não tenho – desigualdade flagrante). Se a culpa é da desigualdade, vou pedir pra aumentarem meu salário pra ficar igual ao do Sakamoto e ter um MacBook igual o dele na foto para eu não assaltá-lo.

Todo o busílis se deu, na verdade, por uma reportagem de Mônica Bergamo, entrevistando socialites sobre a segurança nos restaurantes chiques. Bergamo agiu com uma ironia que as sinapses sakamotas não sakaram: ao contrário de entrevistas geralmente publicadas sem as emoções do entrevistado, estão lá todos os clichês e tremeliques que ainda dão uma sacaneada básica com a bourgeoisie (será que é um bom momento para lembrar que Sakamoto, que não sei como passou em História no vestibular – nem no da PUC – já afirmou que Higienópolis é um “feudo da burguesia”, sem perceber a contradição flagrante na sua metáfora?).
Todavia, mesmo as dondocas parecem muito mais inteligentes do que Sakamoto. Por exemplo, Talita de Gruttola, voluntária no Hospital do Câncer (que pecado! que ostentação! como ainda não gastamos mais um dinheiro público mandando essa elitista para a cadeia?!), afirma: “É um absurdo você ir a um restaurante e pensar que pode ser metralhada”. Humm… eu concordo. E também fora do restaurante. E também no matagal aqui na frente de casa. Por que o Sakamoto, que quer “garantir o direito de sair sem ser molestado”, é contra?!
“A modelo Cassia Avila afirma que tem ‘orado para Jesus’. E evita andar a pé”. Aposto que Sakamoto também acha que uma correntinha no pescoço com uma oração é ostentação. É falta de olhar para o próximo. Curiosamente, também evito andar a pé aqui nas bocadas.
 Já a administradora Flavia Sahyoun dá uma tocada que vai doer lá: “Roubam tanto no Brasil que pensam que todo mundo que tem dinheiro é porque roubou e não porque trabalhou”. Se Sakamoto não fosse o mais inculto dos blogueiros progressistas, apostaria que ele entendeu mal e acreditou em excesso nas teorias de Rawls, e precisava ler como Nozick mostra que Flavia Sahyoun, conhecendo-o ou não, dá valor ao trabalho e ao mérito como Nozick faz (expliquei de passagem lá no blog do Augusto Nunes). Sakamoto dá valor à inveja e à agressão física (abusando do eufemismo).

Mas culpar (ou melhor, criminalizar) a ostentação não seria culpar a vítima? Bem, é direito de todo psicopata. Entretanto, como é possível afirmar isso sobre bens, mas ser a favor da “Marcha das Vadias”?
Sakamoto acredita que tal marcha faz uma crítica ao estupro afirmando, justamente, que “a culpa recai sobre a própria vítima”. E ironiza um possível discurso de estupradores:
Afinal de contas, quem são eles para não se encaixarem? Quem são eles para acharem que podem ser melhores do eu, sendo diferentes do que aprendemos como o “certo”? Bem-feito. Vestida assim, ela estava pedindo.
Ora, nem é preciso trocar as palavras por sinônimos para mostrar a maluquice. Quando Saka soca um “vestida assim”, talvez ele pensasse num decote ou numa mini-saia (o que é de completo direito das mulheres usarem, mas não recomendo que façam quando estiverem sozinhas, ou sem defesa, em lugares onde não sabem se algum tarado aparecerá de repente – sou conservador?). Mas “vestida assim” também pode significar “com uma jóia”, com um Blackberry, com um brinco a ser arrancado. Por que se criminaliza a vítima num caso, e no outro se grita contra sua culpabilização?
Um parágrafo seu é a própria resposta:
“As pessoas envolvidas em casos de violência contra mulheres colocam em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: quem não se enquadra em um padrão moral que nos foi empurrado – e que obedece aos parâmetros masculinos, heterossexuais e cristãos – é a corja da sociedade e age para corromper o nosso modo de vida e tornar a existência dos “cidadãos pagadores de impostos” um inferno. Seres que nos ameaçam com sua liberdade, que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelos homens de bem. Sim, quando uma mulher não pode escolher como se vestir sem medo de ser importunada, ofendida ou violentada toda a sociedade tem uma parcela de culpa. Pelo que fez. Pelo que deixou de fazer.”
Deve ser algo que funciona na década de 60 ou lá no interior de Santo Antônio dos Três Coquinhos (onde, justamente, os bárbaros dominam, e não os civilizados). Mas agora sim vamos trocar algumas palavrinhas: o que ouvi a vida inteira foi um discurso de luta de classes (tenho menos de 30, não me culpem: culpem o Paulo Freire e a Erundina). Quem sempre foi pintado como “corja” por todos os meus professores são os que têm dinheiro. E não se encaixar nos padrões de revolta pelos “hom@ns de bem” é o que me garante o ódio de toda a intelligentsia uspiana. Ou, como disse oUrso, para combater o estupro, devemos engordar e retalhar nossas mulheres? Para Sakamoto, estes são “Problemas que não conhecem classe social, cor ou idade. Como as mulheres que são maioria – e minoria”. Ué….
Parcela de culpa por estupro? Não, eu que recomendo que não se use roupas muito chamativas por aí. E podem ter certeza de que, ao contrário de Sakamoto, quando ouso “combater a responsabilização das vítimas pela violência sofrida”, não escolho se gosto ou não da vítima, nem quanto ela faz de dinheiro (porque “ganhar” é coisa de quem não trabalha), e nem sequer me preocupo em saber se ela votou nos meus candidatos ou não antes de definir se a culpa é mesmo da vítima ou não.

Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. Mora na periferia, precisa de um adicional por trabalho insalubre e não é a favor do Estado porque tem preguiça de pegar fila pra ter comida. No Twitter, @flaviomorgen

COMUNOSSAUROS RESISTEM



Janer Cristaldo, http://cristaldo.blogspot.com/, 18/06/2012

Não se fazem mais PTs como antigamente. O partido que era “contra tudo que está aí”, no desespero para impor uma desconhecida nulidade para a prefeitura de São Paulo, fez aliança com Paulo Maluf, um dos meliantes mais procurados pela Interpol. Virou partido a favor do que der e vier. É bom lembrar que o PSDB estava namorando o Maluf. Que preferiu apoiar quem detém o poder. Os partidos, em busca do poder, perderam todo e qualquer pudor. 

Como esta aliança se revelou insuficiente, o PT escolheu para vice uma velhota há muito jogada na lata de lixo de História. Nada de espantar. Em um país em que um terrorista italiano é recebido com honrarias oficiais, é perfeitamente normal que situação e oposição lutem a tapas pelo apoio de um criminoso internacional. O curioso é boa parte desta disputa é para ganhar um minuto e pouco de espaço televisivo. Meu Deus, meu Deus! – há horas em que viro místico – ainda há alguém que assista propaganda eleitoral na TV? Pelo jeito há. E se há, é porque merece os políticos que elege. 

Costumo afirmar que o comunismo já morreu. Para indignação de alguns leitores, que acham que a peste continua viva e atuante. Quando digo que já morreu, me refiro ao mundo civilizado, onde qualquer pessoa se ruboriza ao defender o obsoletismo. Não é o caso deste país incrível, onde velhas múmias, no afã de preservar a própria biografia, ainda defendem o indefensável.

Luiza Erundina, ao aceitar a candidatura a vice-prefeita de São Paulo, retirou do baú antigas palavras, hoje obscenas. Comparou ontem a eleição de São Paulo à luta de classes. "A sociedade de classes continua tão forte, conflitante, contraditória e antagônica como sempre esteve." E defendeu a implantação do modelo socialista no país, afirmando que a classe trabalhadora não deve disputar apenas "espaço de poder no Estado burguês".

Nossa! Até o PT já tinha abandonado por vetustas essas palavrinhas, tipo luta de classes, socialismo e burguesia. Foi preciso despertar um comunossauro de Uiraúna de seu merencório climatério para voltar ousar a pronunciá-las. "É o socialismo que garante a realização plena do ser humano. É em nome dessa utopia que estamos aqui" – disse Erundina. Pelo jeito, dormia a sono solto no 09 de novembro de 1989. E esqueceram de avisá-la do que aconteceu naquele dia.

Nem os antigos países soviéticos gostam de lembrar do socialismo e dona Erundina quer ressuscitá-lo no Brasil. O socialismo fracassou onde quer que existisse. Até a China optou por um capitalismo não-democrático, mas capitalismo. Hoje só restam dois fantasmas – Cuba e Coréia – que reivindicam o socialismo e vivem uma economia de fome. O comunismo – pois socialismo para Erundina é o velho comunismo - sumiu na janela e só Erundina não viu.

Em todo caso, será uma campanha divertida. Os jornais on line de hoje trazem a foto de um circunspecto Lula apertando a mão de um sorridente Maluf, tendo o afilhado Haddad como pano de fundo. "Esperamos que a Marta se some a nós – disse Erundina –. Se o partido e o candidato me permitirem, vou procurá-la pessoalmente, porque somos amigas e precisamos estar juntas nessa tarefa histórica".

Marta Suplicy faz biquinho, mas acabará se rendendo ao centralismo democrático – como se dizia na antiga nomenclatura. A aliança do “estupra mas não mata” com o “relaxa e goza”. Quem viver, verá.

Ao sul, o Oscar do obscurantismo goes to... Roberto Robaina, um dos gurus do PSOL e pré-candidato à prefeitura de Porto Alegre, que twitou ainda hoje: “Hj nasceu quem foi exemplo de um homem completo. Se não me engano, esta foi a definição de Sartre sobre Che Guevara. Também penso assim”.

O celerado gaúcho pensa como o celerado parisiense. Guevara, se alguém ainda não sabe, é o exemplo mais perfeito de como lutar e perder todas as lutas. Assassino de gatilho fácil, sua única vitória foi Cuba, país que precisou ser sustentado pela finada União Soviética e hoje vive à beira da fome. Ainda há pouco, Castro, em entrevista a Jeffrey Goldberg, articulista da revista Atlantic Monthly, admitia que o modelo econômico de Cuba não funciona mais. “Nem para nós”. Foi preciso mais de meio século para que Castro admitisse seu fracasso. Nem Castro acredita mais no comunismo cubano. Mas não falta gaúcho fanatizado que ainda louve a façanha de Guevara. 

Sartre – que parece ser o mentor intelectual de Robaina - é aquele lúcido pensador que, em 1954, impressionou os intelectuais do Ocidente ao voltar de uma viagem à União Soviética, onde esteve bêbado o tempo todo, quando declarou ao Libération:

"A liberdade de crítica é total na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. E o cidadão soviético melhora sem cessar sua condição no seio de uma sociedade em progressão contínua. Exceto alguns, os russos não têm muita vontade de sair do país... não têm muita vontade de viajar neste momento. Têm outra coisa a fazer em casa".

Mais uma pérola:

"Lá por 1960, antes de 1965, se a França continua estagnada, o nível médio de vida na URSS será de 30 a 40% superior ao nosso. Qualquer que seja o caminho que a França deve seguir para sair de seu imobilismo, para recuperar ser atraso industrial, para se constituir como nação diferente da de hoje, ele não pode ser contrário ao da União Soviética". 

E nisso é que dá receber mordomias de Moscou. Esta prostituta respeitosa, que chegou a receber o prêmio Nobel e o recusou de puro despeito, pois Camus o havia recebido antes, foi guru de toda uma geração de tupiniquins. E, pelo jeito, continua sendo. Entende-se agora melhor Nelson Rodrigues quando dizia ser o pensamento de Sartre de uma profundidade tal que uma formiga o atravessava com água pela canela.

Todo anticomunista é um cão, decretou um dia Sartre. Com a autoridade de parisiense que determina qual será o perfume ou filosofia da década, condenou ao círculo dos infames todos os pensadores lúcidos que clamavam por liberdade, Camus inclusive.

Em 1980, assisti por acaso ao enterro de Sartre, acompanhado por stalinistas e compagnons de route. (Estava bebendo no Select Latin, onde passou a procissão). Pena ter morrido tão cedo. Teria hoje a coragem de chamar de cães toda esta gente que derruba dos prédios estrelas vermelhas e rasga das bandeiras a foice e o martelo? Serão cães estas nações que querem abandonar de suas histórias a palavra comunista? É uma pena, realmente, que Sartre não esteja vivo neste final de década.

Em 59, intelectuais do mundo deram apoio logístico e de mídia a Fidel e Che, para instalar a mais longa ditadura da América Latina. De Paris, o filósofo feio, baixinho e confuso veio dar seu aval ao tirano do Caribe. Uma foto da época é das mais emblemáticas: Sartre, de pescoço espichado para o alto, adorando Castro como um Deus. Em La Lune et le Caudillo (Gallimard, 1989), Jeannine Verdès Leroux nos relembra este momento de extraordinária poesia.

- Todos os homens têm direito a tudo que eles pedem - pontifica Castro. - E se eles pedem a lua? - pergunta Sartre. O ditador retoma seu charuto e se volta para o filósofo baixinho: - Se eles pedem a lua, é porque têm necessidade dela.

Pediam a lua no bestunto do ditador e do filósofo. Em verdade, os cubanos queriam dólares, pão e liberdade. Da mesma forma que a Espanha, em 36, foi um campo de treinamento para a Segunda Guerra, a América Latina era laboratório de experimentos sociais para os filosofadores europeus que, no dizer de Camus, assestavam suas poltronas no sentido da História. 

O comunismo morreu, dizia. Morreu onde nasceu. Na Europa. Aqui, onde nunca foi implantado, continua sendo uma utopia desejável para os “puros e duros” do PT e do PSOL. Enquanto esta geração não morrer – costumo afirmar – o Brasil continuará atrelado à rabeira da história.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Mensalão e o senso de medida


Sandro Vaia, no blog do Ricardo Noblat, 15/06/2012

Existem mais mistérios entre José Dirceu e o mensalão do que sonha nossa vã filosofia.
Os gregos, com a sabedoria que acumularam muitos séculos antes de enrascada do euro, inventaram uma expressão – húbris- para significar uma coisa que passa da medida, e pode ser sinônimo de presunção, arrogância, ou pura falta de comedimento.
Entre as tantas coisas desmedidas que cercam esse capítulo marcante da recente história política brasileira. está a obstinação com que os envolvidos nele tentam negar a sua existência - ainda que ela seja corroborada por 65 mil páginas de investigações e evidências que formam o processo que está para ser julgado pelo STF.
Seria também ocioso citar como desmedidas as reações que o ex-presidente Lula teve a respeito das primeiras denúncias sobre a existência do mensalão.
A primeira reação foi um humilde ato de contrição e um pedido formal de desculpas ao povo brasileiro por um malfeito- para usar uma expressão contemporânea- sobre o qual ele não tinha responsabilidade alguma, uma vez que, para usar a sua própria expressão, fora “traído”. (Como se sabe, só amigos traem).
A segunda reação, que veio mais tarde, foi a negativa total, inspirada, como se sabe, por notório, monumental e geralmente caríssimo saber jurídico. Tudo não passou de um banal episódio de Caixa 2, pecado do qual nenhum partido político brasileiro pode declarar-se inocente.
Mas em matéria de húbris- ou falta de comedimento- o último ato do ex-ministro José Dirceu foi realmente extraordinário.
Que o ex-ministro se tenha em alta conta como um poderoso líder popular e revolucionário da América Latina, não chega a ser segredo para ninguém.
O ex-ministro tentou transferir essa auto-convicção a uma platéia de “jovens socialistas” e militantes de uma entidade estudantil como a UNE, cooptada por verbas públicas (mal aplicadas, segundo denúncias do Ministério Público), chamou o julgamento do mensalão de “batalha final” e pediu que os estudantes saíssem às ruas em sua defesa.
Dando ao simples julgamento de um processo sobre uso suspeito de dinheiro público o tom épico de uma “batalha final” e tentando revestir a sua participação nesse episódio de uma certa monumentalidade, José Dirceu foi um pouco além até mesmo do que o bom senso pode classificar como “húbris”.
O último a cometer tal desatino foi o ex-presidente Collor, quando ainda não tinha sido apeado do poder, e se atreveu a convocar a população a vestir-se de verde e amarelo num final de semana para apoiá-lo e defendê-lo do ataque do que ele considerava seus “inimigos”. A população respondeu vestindo-se de preto.
Seria o caso de parafrasear o inesquecível Nelson Rodrigues e vaticinar que toda megalomania será castigada?

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. E.mail: svaia@uol.com.br

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Zé Dirceu, sempre o mesmo


Um ato de desespero

O Estado de São Paulo
13 de junho de 2012 | 3h 09


A partir de 1.º de agosto, o ex-presidente do PT, ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu será julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por formação de quadrilha e corrupção ativa. Pelo primeiro delito, poderá ser condenado a até três anos de prisão. Pelo segundo, a até 12. O então procurador-geral da República que o denunciou ao Supremo em 2005, Antonio Fernando de Souza, apontou Dirceu como "chefe da quadrilha" ou da "sofisticada organização criminosa" que produziu o mensalão, a compra sistemática de apoio de deputados federais ao governo Lula. A denúncia ao STF foi aceita por unanimidade. No ano passado, o atual procurador, Roberto Gurgel, ratificou o pedido de condenação de Dirceu e de 35 outros réus (dos 40 citados da primeira vez, 1 faleceu e outro fez acordo para ser excluído do processo; para 2 outros, um dos quais, Luiz Gushiken, colega de Dirceu no Ministério, Gurgel pediu a absolvição.
Dirceu alega inocência e se diz alvo histórico do "monopólio da mídia". A imprensa desejaria vê-lo destruído não pelos seus atos no governo Lula, mas pelo que decerto ele considera ser o conjunto da sua obra como o maior líder revolucionário socialista do Brasil contemporâneo, uma espécie atípica de Che Guevara que não fez guerrilha, escapou de ser eliminado e chegou ao poder graças à democracia burguesa. O julgamento que o aguarda, disse dias atrás aos cerca de mil estudantes presentes ao 16.º Congresso Nacional da União da Juventude Socialista, ligada ao PC do B, no Rio, será a "batalha final". Desde os tempos da militância estudantil, ele sempre se teve em alta conta. "Batalha final" é não só uma expressão encharcada de heroísmo, que pode ser usada da extrema direita à extrema esquerda, mas é consanguínea da "luta final" dos "famélicos da terra", nas estrofes da Internacional, o célebre hino revolucionário francês de 1871.
Do alto de sua autoestima e na vestimenta de vítima que enverga, até que faria sentido ele propagar que o julgamento no STF representará o momento culminante do confronto de proporções épicas que nunca se furtou a travar em defesa de seus ideais. Mas a arena que ele tem em mente é outra - e outros também os combatentes. "Essa batalha deve ser travada nas ruas também", conclamou, "se não a gente só vai ouvir uma voz pedindo a condenação, mesmo sem provas (a dos veículos de comunicação)." Em outras palavras, se a Justiça está sob pressão da mídia para condená-lo, que fique também sob pressão do que seria a vanguarda dos movimentos sociais para absolvê-lo. Se der certo, a voz do povo falou mais alto. Se não der, o veredicto da Corte está desde logo coberto de ilegitimidade, como se emanasse de um tribunal de exceção.
Em 2000, dois anos antes da primeira eleição de Lula, Dirceu conclamou o professorado paulista a "mais e mais mobilização, mais e mais greve, mais e mais movimento de rua", porque eles - os tucanos como o governador Mário Covas - "têm de apanhar nas ruas e nas urnas". Pouco depois, no dia 1.º de junho, o governador, já debilitado pelo câncer que o mataria no ano seguinte, foi covardemente agredido por manifestantes diante da Secretaria da Educação, no centro de São Paulo. Depois, Dirceu quis fazer crer que não incentivara o ataque: foi tudo "força de expressão". Não há, portanto, motivo para surpresa quando ele torna a invocar "as ruas". Na sua mentalidade ditatorial - em privado, desafetos petistas já o qualificaram de "stalinista irrecuperável" -, ele se esquece até do dito marxista de que a história se repete como farsa.
Como já se lembrou, o então presidente Collor conclamou a população a protestar contra a tentativa de destituí-lo. A população, especialmente os jovens, aproveitou para pedir o seu impeachment. Como também já se lembrou, hoje em dia os jovens nem sequer saem de casa em defesa de bandeiras mais nobres, a começar pelo repúdio à impunidade dos corruptos, que dirá para assediar o STF no caso do principal réu de um caso de corrupção comparável apenas, talvez, aos dos escândalos da República de Alagoas. Mas é óbvio que a tentativa rudimentar de intimidação repercutirá no tribunal. Se Dirceu não se deu conta disso é porque, como Lula já disse, ele está mesmo "desesperado".

quinta-feira, 17 de maio de 2012

CINEASTA TAMBÉM É GENTE


Janer Cristaldo, 16/05/2011
http://cristaldo.blogspot.com.br/

Quando ouço falar em cultura, puxo o revólver – teria dito Goebbels. De minha parte, quando ouço falar em cultura nacional, tenho vontade de chamar a polícia. Não chamo porque não vai adiantar nada mesmo. Ainda há pouco, eu falava das corrupções perfeitamente legais. Aquelas das quais ninguém fala, encontradiças no mundo acadêmico e artístico. Artes, no Brasil, virou uma questão de Estado.

Há milhares de escritores que ninguém leria – a começar pelo Machadinho – vendendo milhões de exemplares porque o Estado os empurra nos currículos. Mais milhares de atores encenando peças graças à lei Rouanet. Mas dezenas, senão centenas de cineastas fazendo filmes com o dinheiro do contribuinte. Os filmes não precisam vender. Não precisam nem mesmo ser vistos. O que importa é que o cineasta receba o seu. Claro que os beneficiários de tais benesses não podem dizer a menor palavrinha contra o governo. Stalin sabia disto e cultivava carinhosamente seu plantel de escritores e cineastas.

Leis para isso é o que não falta: lei Rouanet, Lei Mendonça, lei do Audiovisual, Fazcultura, e por aí vai. Por cultura, de modo geral, entendem os pedintes espetáculos, filmes ou publicações ligados ao show business, todos com finalidades lucrativas. É como se o artista - ou agente cultural, como parece soar melhor - mandasse um recado ao contribuinte: "em nome da cultura, me repassa teus impostos, que eu quero passar bem".

Fernando Collor de Mello, o Breve, pode não ter agradado as estruturas nacionais de poder. Mas no dia de sua posse, em 1990, deu uma grande alegria, não só a mim como a todos os contribuintes do país: extinguiu a Embrafilme. De uma penada, acabou com a festa de um setor privado que adora o conforto garantido com o dinheiro do Estado. Isto é, com o dinheiro nosso, já que Estado nada produz e nada ganha. Entre outras, esta terá sido uma das razões de sua queda. A gigolagem cinematográfica permaneceu quatro anos em jejum, mas não perdeu a vocação. Em 1994, através da Lei do Audiovisual, meteram de novo a mão no bolso de quem ganha honestamente seu sustento. O mecenato é tão atraente, que até as redes televisivas já pensam em também meter a mão nesse bolso inexaurível, o do povo, para produzir suas baixarias.

No governo Lula, os gigolôs se tornaram ainda mais ousados. Através do decreto 4.945, publicado na calada do réveillon de 2003, cada uma das 1800 salas de exibição do país foram obrigadas a dedicar 63 dias de sua programação ao cinema nacional. Em 2003, os dias de exibição obrigatória eram 35. A gigolagem conseguiu revogar essa reacionária lei da oferta e da procura para enfiar goela abaixo do espectador seus abacaxis. O que sobra do mercado é reserva dos abacaxis americanos. Só por milagre você hoje consegue ver um filme alemão, italiano ou finlandês.

Em fevereiro de 2010, comentei o projeto de lei do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que estava então prestes a ser examinado na Comissão de Educação do Senado, propondo que os estudantes brasileiros das escolas públicas e privadas assistissem no período de um mês a pelos menos duas horas de filmes nacionais. A medida é de caráter obrigatório.

Rosalba Ciarlini, senadora do DEM, partido tão venal como o PT, deu na época dois pareceres totalmente diferentes sobre o projeto. Em maio daquele ano, defendeu sua rejeição. “Esse tipo de norma, por sua rigidez, conquanto possa servir a interesses diversos e estranhos à escola, pouco ou nada contribui para a melhoria do ensino. Ao contrário, pode diminuir a margem de autonomia e de flexibilidade dos estabelecimentos de ensino".

Em novembro, por ocasião do lançamento de O Filho do Brasil, hagiológio ao analfabeto-mor, a senadora só teve elogios para a proposta, sob a alegação de que a obrigatoriedade das escolas exibirem filmes nacionais "será benéfica para ambos, estudantes e indústria cinematográfica. A produção nacional, com raras exceções, tem qualidade plástica e conteudista irretorquível, diversidade temática e de público-alvo". O que a senadora propunha, no fundo, era a exibição obrigatória de uma ficção sobre o presidente mais analfabeto, mais incoerente, mais mentiroso, mais corrupto e o maior acobertador da corrupção que o Brasil jamais teve em seus dias de república. Mesmo assim, o filme de louvor a Lula deu com os burros n'água.

Pois bem, o projeto infame de Cristóvão Buarque foi agora examinado na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. E acaba de ser aprovado. Segue para a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Onde obviamente será também aprovado.

As artes nacionais, de tão excelentes, vivem hoje de esmolas do poder. Tanto escritores como cineastas, artistas plásticos, atores de teatros, são humildes pedintes de verbas governamentais, que estendem o chapéu ao Planalto. Desde há quatro décadas, não assisto cinema nem teatro nacionais. Poderia eventualmente assistir. Mas além de ingresso gratuito, quero limusine na porta de casa. Afinal, se há anos venho financiando estes parasitas com meus impostos, sem limusine nada feito. E mesmo com limusine, sei lá! Tampouco leio autor cuja leitura seja obrigatória nas escolas. Quer dizer: não leio praticamente nada da literatura que se faz no Brasil.

Esta corrupção, com patrocínio do Legislativo, jornal algum denuncia. Os jornais são cúmplices. Suas páginas abrigam e louvam escritores, atores e artistas que são gigolôs do poder. Que nada valem por suas obras e que só são conhecidos porque impostos a um público indefeso. A União Soviética morreu há duas décadas. E o Brasil continua financiando escritores e artistas venais, como faziam os comunistas no século passado.

A meu ver, o projeto do senador Cristovam Buarque é tímido. Bem que podia ir mais longe. Mais duas horas obrigatórias de teatro nacional. Mais outras duas de Rede Globo. Mais outras tantas de Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Mais duas de Xuxa e Sílvio Santos. E mais duas – por que não? – de Edir Macedo e R. R. Soares. Isto é Brasil. Isto é brasilidade. Isto é cultura nacional.

Nem só negros querem cotas. Cineasta também é gente.