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terça-feira, 20 de março de 2012

O que aconteceu com Mimi?


Cilene Rodrigues
Artigo publicado em 19/03/2012 no Correio Braziliense e em 20/03/2012 no blog do Ricado Noblat


Atenção, jovem do Brasil! Se você sabe que Mimi Alford foi amante secreta do presidente John Kennedy e que, no fim de semana da morte de seu amante, Mimi ficou tão arrasada que decidiu contar tudo para o seu noivo, parabéns. Você é bom candidato, ou candidata, não a um cargo de colunista da revista americana Vanity Fair, mas ao posto de consultor legislativo do Senado Federal brasileiro.

Se, além disso, você é bom de decoreba e lembra de memória o nome de todos os diretores da Petrobras e sabe na ponta da língua a resposta para a pergunta número 20 da última prova da Fundação Getulio Vargas (FGV) para a consultoria do Senado (consultor de orçamento, 2008), você tem chances reais de se tornar em 2012 um consultor de pronunciamentos do Senado.

O negócio é saber coisas inúteis, tomar memorex e praticar até caducar questões de provas passadas.

Inteligência? Estar antenado com os acontecimentos globais? Para que isso? Não se preocupe em fazer leituras pesadas. Concentre-se em decorar nomes e terminologias e trate de mentalizar o modelo de prova da instituição responsável pelo concurso.

Se você sabe verificar os passos argumentativos de um texto, conhece tudo sobre a Primavera Árabe, a histórica luta da Palestina pela independência, entende por que as nações atuais devem criar modelos de desenvolvimento econômico que sejam compatíveis com a sustentabilidade ambiental, tem uma visão crítica de problemas seculares do Brasil, como falta planejamento urbano, precariedade do sistema de saúde e educação pública, falsa distribuição de renda, então esqueça o sonho de trabalhar no Congresso.

Com esse conhecimento todo, você pode ser professor universitário, mas nunca consultor legislativo do Senado. Contente-se com o salário inicial de no máximo R$8 mil pago nas universidades públicas.

Faça as pazes com o fato de que você dará aulas em salas faltando giz, sem ar-condicionado no verão e que, às vezes, inundam durante o período das chuvas.

Dinheiro para pesquisa? Só se você for muito persistente. O Brasil, tendo de pagar altos salários para funcionários do Legislativo, Executivo e Judiciário, não pode dedicar mais que 1% do Produto Interno Bruto (PIB) à pesquisa.

Por isso, você não vai fazer sua pesquisa de graça. Você vai pagar do próprio bolso por ela. Fazer o quê?

A pessoa que sabe quem foi Mimi Alford merece ganhar mais que você, concorda? Afinal, ela vai passar na prova da Fundação Getulio Vargas, você não.

Então, coloque uma pedra sobre o sonho de ganhar R$ 23 mil por mês, sem dedicação exclusiva, trabalhando em salinhas com ar-condicionado, carpete bonito no chão, cheias de gente becada. Isso não te pertence. Você sabe demais!

A prova da Fundação Getulio Vargas para consultor legislativo na área de pronunciamento do Senado Federal mostra abertamente a realidade brasileira: o país cresce e aparece economicamente, mas, quando o assunto é educação e desenvolvimento do conhecimento, contemplamos o futuro pelo espelho retrovisor e vamos de marcha a ré.

O conteúdo de várias das perguntas é alarmante, prova concreta do nosso subdesenvolvimento intelectual.

É tão descabível perguntar sobre Mimi Alford em uma prova para um cargo de consultor legislativo que nos resta apenas a dúvida: seria esse um concurso de cartas marcadas, feito para mimos e mimis de senadores e deputados? Isso ou estamos vivendo um verdadeiro apagão intelectual.

Nossos senadores terão a partir deste ano, ao seu dispor, uma junta de especialistas em Mimi Alford. Dessa junta sairão os discursos que as nossas crianças ouvirão na rádio e TV Senado ou estudarão na escola, perpetuando, assim, a cegueira atual.

Falando em crianças e escola, é preciso, diante da prova da Fundação Getulio Vargas, rever nossas críticas ao método de ensino público. Nossas crianças, todas elas, têm o direito de se prepararem bem para um concurso público e de se tornarem consultores do Legislativo. Então, decoreba massiva neles!

Leituras? Só se for de revistas de fofocas. Nada mais. Hoje foi Mimi. Com o andar em retrocesso da nossa carruagem, em 20 anos, a bola da vez poderá ser uma das famigeradas Mônicas.

Cilene Rodrigues é PhD em Linguística e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Esse artigo foi publicado, ontem, no Correio Braziliense.

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