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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Vida em Cuba- A síndrome da baratinha: o que comprar?


fonte: site O Maldito, 23/12/2010


O dinheiro veio num envelope branco, trazido até a porta por uma agência - alternativa e ilegal – de distribuição de remessas. Era acompanhada por uma carta do tio que se foi, faz trinta anos, para Nova Jérsei e que nunca mais voltou. “Use-o para celebrar o Natal”, dizia com sua letra estilizada e concluía a nota com um breve “bye”. A senhora fechou a porta ainda sem acreditar que o parente emigrado lhes havia mandado aqueles 50 dólares salvadores no fim de ano. Chamou aos gritos o filho e a nora, enquanto a grande pergunta começava a tomar forma em sua mente: “O que comprarei para mim?”.

Primeiro pensaram em consertar o teto que mostra infiltrações a cada aguaceiro, porém ao deduzirem os 20% de imposto do USD em Cuba, não restou o suficiente para os materiais. Outra possibilidade era investir na licença de uma cafeteria para vender sucos na frente da casa. O filho da senhora a convenceu rapidamente que não, pois os lucros de tal atividade por conta própria demorariam a chegar e eles precisavam de dinheiro urgentemente. Lembrou que sua esposa pariria em três semanas e que a prioridade eram as fraldas descartáveis para o bebê. Contudo, a dona da casa se negou a converter tudo em Pampers, podendo com o pequeno capital consertar o motor da lavadora, quebrada há anos. “Ademais, eu necessito de um par de sapatos, porque me aborrece ir assim para o trabalho”, sentenciou a já mal humorada mulher. O tio – à distância – estava alheio a agitação que sua remessa estava causando.

Ficaram discutindo o resto da semana sobre o que fazer com os 40 pesos conversíveis que lhes deram como troco no banco. A discussão tomou tons agressivos em certos momentos, quando a filha que não vivia na casa apareceu para reclamar a parte que lhe tocava. Ninguém pensou seriamente em cumprir com o que o familiar exilado havia desejado: que adquirissem uns torrones, uma garrafa de cidra e um pedaço de porco para a Noite Feliz. Ao amanhecer de um sábado de dezembro, o vaso sanitário amanheceu entupido. Chamaram um bombeiro que cobrou 38 CUC para consertá-la e trocar uma parte do encanamento. A própria vida havia estabelecido assim suas prioridades de gastos. Então a mulher sentou numa poltrona da sala e voltou a se perguntar o que compraria, agora, com os 2 CUC restantes.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto
Fonte- Desde Cuba

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