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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Para conhecer o (verdadeiro) Paraíso


Uma viagem pela Cuba de Fidel Castro

Por Carlos de Souza
fonte: http://www.substantivoplural.com.br/uma-viagem-pela-cuba-de-fidel-castro/


Na semana passada eu disse o seguinte: “A primeira indicação de leitura de hoje é Viagem ao Crepúsculo, de Samarone Lima, Editora Casa das Musas, 231 páginas, R$30,00. Interessante livro de viagem que tem o sabor picante da reportagem. O autor é um jornalista e escritor cearense que vive em Recife com passagem por vários jornais e revistas de Pernambuco e São Paulo. Aqui ele embarca em uma viagem por uma Cuba que vive o apagar das luzes do governo de Fidel Castro e a triste continuação desta ditadura através do irmão Raúl Castro. É o tipo do livro que você começa a ler assim despretenciosamente numa parada de ônibus e não consegue mais parar. Aí você descobre que perdeu o ônibus e vai ficar na parada por uma boa hora inteira com medo de perder o próximo. Então você deixa para ler em casa e não dorme enquanto não termina. Olha, aqui está um relato corajoso sobre Cuba. Tudo que um cuecão comunista jamais vai gostar de ler. Aqui todas as mazelas da utopia comunista são mostradas sem piedade. Não se trata de chutar carrocho morto, mas de uma extrema piedade pelo valente povo cubano, que de tão entorpecido com a miséria e a violência do bloqueio econômico imposto pelos americanos, já não consegue vislumbrar uma saída. Quanto mais você lê, mais desolado vai ficando com a tragédia cubana. Não vou adiantar mais nada aqui. Quero que vocês leiam este danado de livro bom e pronto”.

Tudo isso é verdade, mas este livro merece um comentário mais extenso. Samarone Lima viajou a Cuba como mochileiro. Ele queria ver o povo cubno de perto, o que jamais conseguiria se embarcasse naqueles roteiros turísticos programadinhos, com ônibus para passear e coisa e tal. Não, ele preferiu ficar na casa de um casal homossexual que hospeda pessoas para reforçar o magro orçamento. Depois de uns dias andando pelas ruas de Havana, ouvindo as pessoas e levando calote por causa de sua cara de estrangeiro, decidiu procurar outro lugar para ficar, porque o casal tentou aumentar o preço de sua diária.

A partir daí, quando ele se hospeda na casa de uma cubana amiga de estudantes brasileiros, é que começa a mergulhar fundo no cotidiano da ilha de Fidel. O povo cubano vive na miséria total. Essa história de que lá tem educação e saúde de qualidade é mentira, pura propaganda que o governo cubano consegue passar para admiradores do regime, como Frei Betto, que voltou de lá com um livro contando maravilhas do socialismo cubano.

O povo cubano vive sem liberdade de expressão (se você viveu os dias da ditadura militar no Brasil sabe um pouco do que estou falando), sem comida, sem o mínimo para uma vida decente, sem liberdade. É um povo corajoso, alegre, mas que não consegue se rebelar, porque Fidel Castro montou um sistema de vigilância e delação que ultrapassa qualquer noção de paranóia que você tenha conhecimento. Enfim, viver em Cuba é uma merda, menos para a elite que apóia o governo. O livro de Samarone mostra isso com uma leveza, uma clareza, um senso de humor que encanta o leitor. Sua opção de apenas ouvir e depois anotar, deixou seus interlocutores completamente à vontade para falar. Ele diz que não pretendeu fazer jornalismo, apenas um livro de viagem, mas é jornalismo puro, na sua forma mais inteligente.

Um dos momentos mais emocionantes do livro é quando ele conta que, um dia, estava andando pelas ruas de um bairro pobre, quando viu um ônibus de turistas parado. Os caras bem vestidos, com suas máquinas fotográficas de luxo, fotografavam as pessoas que, tristemente, procuravam esconder suas faces. Quando eu li isso, tive a certeza de que não quero ir a Cuba de jeito nenhum. Não vou viajar para ver a miséria alheia. O livro de Samarone para mim já é a viagem que não fiz. E olha que já li outros livros sobre Cuba e vi um documentário sensacional, não autorizado (acho que na GNT), que dá uma idéia do que é dito neste livro.

Eu tenho amigos que defendem com ardor o regime cubano. Eles sonham com uma revolução que prometeu felicidade ao povo. Outro dia li uma biografia do revolucionário francês Robespierre e fiquei muito ciente das boas intenções dos revolucionários. Robespierre sonhava com uma república perfeita, em que o povo seria o soberano e sua felicidade era a meta maior. O período em que ele liderou a revolução foi o mais sangrento. Houve dias em que mais de 60 pessoas passaram pela guilhotina. O livro conta também o saldo sangrento da passagem de Che Guevara pelos distritos sob seu comando. Olha, revolucionários são como religiosos fanáticos. Eles matam sem remorso em nome de suas causas. Não se enganem com pessoas puras demais. As revoluções nascem cheias de boas intenções, prometendo um futuro de leite e mel para os pobres, mas nunca dizem quanto tempo os sacrifícios irão durar.

O tormento cubano se arrasta em meio à corrupção generalizada, repressão e fome. Mesmo depois que Fidel Castro morrer, ninguém garante que as coisas possam mudar por lá. Em certos momentos do livro de Samarone não deixei de lembrar o livro 1984, de George Orwell. A imprensa cubana lembra muito a mídia do Big Brother do livro. Quem lê um jornal cubano acha que está na Bélgica. Outro detalhe curioso: Hugo Chávez é um herói por lá. Imagine se os radicais do MST, PT, PSTU ou PSOL conseguem implantar um regime desses no Brasil… É de gelar o coração.

O livro foi rejeitado por várias editoras, antes de ser editado pela Casa das Musas. Isso dá uma idéia do estado de quase demência que ataca o mercado editorial brasileiro. Encontrei alguns erros de revisão, mas nada que não possa ser solucionado numa próxima reedição. Fiquei sabendo que Samarone Lima vai lançar seu livro em Natal nos próximos dias. Vou aguardar com ansiedade para lhe dar os parabéns.

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