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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Steve Jobs: santo ou ...


Do blog de Janer Cristaldo (http://cristaldo.blogspot.com/)


SAINT STEVE?
10/10/2011


Em meus verdes anos, quando fazia Filosofia, eu olhava meio de esguelha para os universitários da área técnica e científica. O saber, o humanismo, pensava eu, reside na Filosofia e nas Letras. Nada como o tempo para mudar as gentes. Hoje vivo afastado deste mundo e meu convívio tem sido maior com amigos da área técnica. Me fascinam as grandes obras da engenharia e os feitos da informática. Em algum lugar escrevi que quem descobre um chip mais rápido faz mais pela comunicação entre os homens do que um literato. Se os escritores estabelecem elos de comunicação, os informatas os tornam mais ágeis e mais ao alcance de todos.

Mas, cá entre nós, a imprensa está exagerando na apologia a Steve Jobs. O homem teve sua importância, isto é inegável. Daí a ser considerado gênio vai uma grande distância. Bill Gates mexeu com a minha vida. Quanto ao Jobs, se não tivesse existido, nada teria mudado em meus dias. Não tenho em casa nenhuma de suas geringonças. Estou pensando vagamente em um iPhone, mas hesito. Sei que pouca utilidade terá para mim, será mais ou menos como um brinquedinho portátil. Os achados de Jobs atendem mais a uma fome de consumo do que a uma real necessidade.

É equívoco da imprensa atribuir a Jobs a invenção do iPhone, iPod, iPad, iMac, como vem sendo feito. Não estamos mais nos tempos de Da Vinci ou Thomas Alva Edson. Na área da informática, todo gadget é fruto de milhares de homens/horas trabalho. Em recente artigo, dizia Farhad Manjoo, comentarista da revista eletrônica Salon:

- Há uma escola hagiográfica de Jobs que sugere ter sido ele o inventor individual das soluções. Embora haja centenas de patentes com o nome dele, Jobs não era o responsável pelas idéias dentro da Apple. O papel dele era separar as boas idéias das más idéias até elas virarem produtos.

Os devotos de Jobs dirão que algo tenho dele aqui em casa, o mouse. Segundo Manjoo, não é bem assim:

- O caso mais famoso desse seu talento foi o mouse, dispositivo que ele conheceu em 1979 numa viagem à unidade de pesquisas da Xerox em Palo Alto. Jobs percebeu na hora que aquilo poderia redefinir a computação e trabalhou febrilmente na tentativa de transformar aquilo em algo útil. Ele copiou outras partes do Mac de Jef Raskin, lendário especialista em interfaces de computador na Apple que bolou vários dos principais conceitos da computação gráfica.

Jonathan Ive, um dos diretores da Apple, tem suas queixas:

- Ele tinha um jeito de examinar minhas idéias e dizer: “Isto é bom, isto não é muito bom, gosto disto”. E depois eu me sentava na platéia e ele falava daquilo como se fosse idéia sua. Presto uma atenção insana para entender de onde vem uma idéia, a ponto de encher cadernos com minhas idéias. Por isso dói quando ele assume a autoria de um de meus designs.

O depoimento de Ive é grave. Estamos diante de um gênio ou de um operoso plagiador? A imprensa está fazendo a hagiologia de Jobs. Parece que a época está precisando de santos.

Mas Saint Steve está mais para ladrão do que para santo.

MENSAGEM DO DRESSLER, 11/10/2011


Caro Janer,

Finalmente alguém escreveu a VERDADE sobre Jobs. Talentoso? Sem dúvida. Mas o sistema de interface de janelas e mouse foi invenção de anônimos engenheiros da XEROX, como você escreveu. Obra totalmente da XEROX, que incrivelmente cedeu os direitos à Microsoft e Apple, por achar que o sistema não tinha futuro... Bizarro, não? Tanto Jobs quanto Gates viram grandes possiblidades, e a Apple lançou o Mac e a Microsoft o Windows. A Apple lançou primeiro por um simples motivo: abandonou completamente os sistemas anteriores usados pela Apple e lançou uma máquina totamente nova, cara, o Mac, e que não podia ser copiada, plataforma fechada exclusiva da Apple, bem ao estilo Jobs. Já a Microsoft demorou mais porque, preocupada com seus clientes, adaptou o sistema para ser compatível com o antigo MS-DOS, que até ali era o sistema mais usado em PCs. Deu no que deu, espalhou-se pelo mundo e detém 90% do mercado.

Por outro lado, é interessante ver como a mídia, predominante esquerdista, endeusa Steve Jobs bem acima dos seus reais feitos: ele APARENTAVA ser esquerdista, era um "reevolucionário" (que faz novas evoluções sobre o que já existe, ou está prestes a existir: ele era uma espécie de catalizador que acelerava o que já estava em andamento; faço questão de distinguir de "revolucionário", que ele não era no sentido que a esquerda usa para si). Jobs "reevolucionava": celulares já existiam, o Kindle já existia, o computador pessoal já existia antes dele, ele só os fez melhorarem (principalmente no design), o que não deixa de ser um grande feito, de qualquer maneira.

Divertido também é que justamente a esquerda goste tanto de Jobs, que era um tremendo capitalista, que se não tivesse essa "aura" de esquerdista, seria tido como um capitalista selvagem, que produz na China e que mantém as plataformas de seus produtos fechadas, não permitindo que outros produzam, processando quem faz algo parecido, etc.. Se dependesse dele e da Apple, o computador pessoal jamais estaria na casa de todos (até em favelas), seria caro demais para poder ser comprado. Jobs também jamais fez caridade, doações, etc., no que eu acho que ele até fez muito bem, não se dá dinheiro para as pessoas, se dá é conhecimento para que façam por si mesmas.

Mais divertido ainda, é que também a esquerda odeie quem mais fez pela democratização da informática, Bill Gates e a IBM. Não sei se você sabe, mas os computadores, antes da chegada do PC-IBM, custavam muito caro, inclusive os da Apple. Foi a plataforma aberta da IBM (que os outros fabricantes podiam copiar à vontade), o MS-DOS e depois o Windows da Microsoft que jogaram, em menos de 10 anos, os preços de computadores pessoais e servidores para 10% dos valores cobrados antes de seus advento. Mas Bill não tem este aura de revolucionário, ao contrário, é pragmático, então malha-se diariamente o sujeito.

Porém, ambos eram capitalistas, porque é só com o Capitalismo é que as verdadeiras revoluções são feitas neste mundo: com trabalho, pragmatismo e criatividade, bem dosados.

Abcs
James Masi Dressler

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