quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Chávez engasga com pergunta de jornalista sobre lei eleitoral
Pablo Ordaz
El Pais, 29/09/2010
Enviado especial a Caracas (Venezuela)
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Hugo Chávez está aborrecido, muito aborrecido. Os resultados eleitorais de domingo o deixaram de semblante contrariado. Não tanto pela ressurreição da oposição --que conseguiu 65 deputados dos 165 em disputa--, nem mesmo porque os 98 obtidos por seu partido não são suficientes para legislar à vontade, mas sim porque a forma de ganhar, através de uma lei eleitoral desenhada na sua medida há apenas um ano, deixou a descoberto sua maneira particular de usar a democracia. O aborrecimento de Chávez se revelou na tarde de segunda-feira, diante de uma pergunta de uma jornalista venezuelana.
Mais que uma pergunta, foi "a" pergunta: "A diferença entre os votos obtidos por seu partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e os que conseguiu a Mesa da União Democrática (MUD) é de apenas 100 mil. E é difícil entender que, tendo obtido quase o mesmo número de votos, a oposição tenha conseguido 37 cadeiras a menos que o PSUV (afinal a diferença seria de 33). Pergunto-me se estaria se confirmando a tese da oposição que afirma que a redistribuição dos circuitos eleitorais foi feita com a intenção de favorecer o PSUV, ou que talvez o voto do PSUV valha por dois..." O que respondeu Chávez? Nada. Não soube responder e, fiel a seu estilo, atacou a jornalista.
Acusou-a de não conhecer a Constituição, de pertencer a um meio de comunicação que divulga mentiras, de não prestar atenção e formular "perguntas gelatinosas que não têm fundamentação lógica", de viver na lua, de manipular... Entre uma crítica e outra - com o coro de uma parte dos membros de seu governo e dos jornalistas do regime que riem de suas graças -, Chávez tentava responder, mudava papéis de lugar, se remexia na cadeira, segurava um lápis ou convidava a jornalista, Andreína Flores, a tomar o café que acabavam de lhe servir...
Mas o comandante-presidente não encontrava uma resposta lógica... e afinal decidiu atirar para o alto: acusou os que formulam essas perguntas de obedecer a interesses obscuros e desestabilizadores, que "tentam tirar o petróleo da Venezuela para entregá-lo aos ianques". Mas não respondeu. Talvez porque não houvesse como fazê-lo: com a lei anterior e esses mesmos resultados, o PSUV e a Mesa da União teriam empatado em 80 deputados. Mas ele reformou a lei de tal modo que nas áreas mais inclinadas a sua gestão um deputado valha menos votos que nas demarcações onde nunca ganhou. O resultado não pode ser mais claro: uma vitória de 98 a 65 com o mesmo número de votos.
A verdade é que o presidente, que passou 24 horas em silêncio digerindo na intimidade o mau resultado, está disposto a utilizar os meses que restam até janeiro - data em que se constituirá a nova Assembleia Nacional - para aproveitar a maioria absoluta que ainda tem. O chefe do comando Bolívar e deputado Aristóbulo Istúriz advertiu assim a oposição: "Vamos legislar até o último dia, por isso preparem-se". E Chávez, quando ia se recuperando do mal trago, desafiava a oposição a convocar um referendo para revogar seu mandato: "Como são maioria e eu já cumpri três anos deste período, lhes faço um desafio: convoquem já uma revogatória! Para quê vão esperar dois anos para me tirar? Dentro de dois anos será mais difícil, porque o que vem é 'joropo' [baile], por isso vão comprando alpargatas".
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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